A REVOLUÇÃO BOLIVARIANA: UM LEGADO A SER PRESERVADO

Os venezuelanos, que já perderam muito, também perderam o medo” | Venezuela  | PÚBLICO
Venezuela

Sempre que vemos notícias sobre a Venezuela, a primeira coisa que nos vem à mente e que, na sequência, ocupa a discussão dos comentaristas, são os problemas sociais e econômicos do país: inflação, pobreza, repressão e perseguição política, crise de refugiados, etc. E automaticamente tudo isso nos faz crer, em uma questão de lógica pura, que bastaria apenas trocar o governo, já que a raiz de todos os males se chama Nicolás Maduro, um ditador corrupto.  

Se é verdade que há inúmeras falhas das quais ele é diretamente responsável, o que é inegável até para muitos de seus partidários, é bastante superficial e raso crer que esta é a única e simples causa, ignorando fatores como o interesse das grandes potências no controle  político e econômico da Venezuela (assim como da maioria dos países da América Latina, incluindo o Brasil), e a instabilidade interna naquele país que já existe muito antes dos anos 2000, e que é quase uma constante na política interna, e que é muito explorada pelos agentes que buscam se beneficiar do caos, da desunião e da fragmentação nacional.

Para entender melhor isso, vamos analisar as riquezas naturais da Venezuela, e também voltar um pouco no tempo, no final dos anos 1980 e início dos 1990.

RECURSOS NATURAIS DA VENEZUELA

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Recursos Minerais da Venezuela


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A Venezuela possui a maior reserva de petróleo da atualidade

A REVOLUÇÃO BOLIVARIANA

O Comandante Hugo Chávez se rebela contra o governo opressor e neoliberal de Andres Pérez

A ascensão de Hugo Chávez ao poder na Venezuela foi marcada por um contexto de profunda insatisfação popular com o neoliberalismo. Em fevereiro de 1989, o "Caracazo" expôs a explosão de uma revolta popular contra as políticas de austeridade do governo de Carlos Andrés Pérez, que respondera com uma repressão brutal, resultando na morte de centenas de pessoas. Esse cenário levou Chávez, então um jovem oficial do Exército, a liderar um golpe fracassado em 1992, liderando um movimento chamado MBR-200 (El Movimiento Bolivariano Revolucionario 200). O nome bolivariano remete a Simón Bolívar, símbolo da independência dos países que fizeram parte da extinta Gran-Colômbia (hoje Venezuela, Colômbia, Equador e Panamá).

Simón Bolivar, a bandeira e mapa da extinta Gran-Colômbia, e as bandeiras das nações atuais

Preso após a tentativa, Chávez emergiu como um ícone da resistência popular. Em 1998, foi eleito presidente com uma plataforma que prometia combater a pobreza e o neoliberalismo.

A Venezuela após a morte de Hugo Chávez | Sindicato dos Metalúrgicos de São  José dos Campos e Região
Hugo Chávez, já como presidente da Venezuela

Durante seu governo, Chávez realizou transformações significativas: mudou a Constituição, Nacionalizou o petróleo, fortaleceu os serviços públicos e promoveu programas sociais que reduziram drasticamente a pobreza. Além disso, incentivou a participação popular por meio de conselhos comunitários e outras formas de organização social. Sob sua liderança, a Venezuela tornou-se uma referência de luta pela soberania nacional na América Latina. Liderou iniciativas internacionais, como a criação da UNASUL E ALBA, participando ativamente também do MERCOSUL E CELAC, fortalecendo a integração latino-americana, e a unidade destes países diante dos interesses imperialistas dos Estados Unidos e seus aliados europeus.

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Hugo Chávez acreditava no fortalecimento da soberania dos países da América Latina mediante a integração regional
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Mas seu governo foi marcado por constantes tentativas de desestabilização por parte dos Estados Unidos e aliados europeus, que se opunham ferozmente à nacionalização do Petróleo, e cobiçavam a exploração de recursos naturais da Venezuela, além de se oporem veementemente aos processos de integração Sul-americano e Latino-americano. Tanto que os Estados Unidos reativaram a quarta frota em 2008, como resposta aos processos de integração, iniciando também processos de desestabilização de todos os governos favoráveis a integração regional.

"Trecho de matéria publicada em 2008, da reação brasileira contra a reativação da IV Frota dos EUA"

 

 Recomendo aqui os documentários "A REVOLUÇÃO NÃO SERÁ TELEVISIONADA" e "AO SUL DA FRONTEIRA" (este último de Oliver Stone) que expõem todas as tentativas de Washington de desestabilizar governos, especialmente sob a administração de George W. Bush, utilizando veículos de imprensa, financiamento e apoio a grupos dissidentes, prática que também foi mantida sob a gestão de Barack Obama e seus sucessores.

Hugo Chávez conseguiu sobreviver a tentativas de golpes e de desestabilização externa mediante o forte apoio popular e das forças armadas, evidenciando o caráter cívico-militar da Revolução Bolivariana, que iniciara com o Caracazo na década anterior. Ele passou a promover referendos e plebiscitos sobre temas relevantes, incluindo sobre a continuidade do próprio mandato, permitindo que o povo impedisse a continuidade dos mandatos por meio do voto popular.

No entanto, o processo de revolução bolivariana é impactado com sua sua morte em 2013, após uma longa luta contra o câncer e complicações em uma cirurgia.

Em seguida, novas eleições foram convocadas, onde seu ex-ministro das Relações Exteriores, Nicolás Maduro, vence o opositor Henrique Capriles.

O curioso gráfico da TV estatal venezuelana sobre a eleição - Jornal O Globo
Primeira eleição de Nicolás Maduro em 2013, após a morte de Hugo Chávez

O fim do legado de Chávez sob Maduro?

Embora a oposição externa e interna a Maduro seja uma continuação natural das investidas do imperialismo contra a soberania nacional da Venezuela, como já ocorria antes, com sanções econômicas e fomento à oposição, é inegável que "Maduro não é Chávez", e não possui a mesma capacidade político-administrativa do mesmo. Os índices econômicos e sociais e a articulação política interna com os partidos, e a articulação política externa para integração regional foi muito diferente da capitaneada por Hugo Chávez.

Uma das frases ditas certa vez por Hugo Chávez, é que o PSUV (o partido articulado por Chávez) deveria ser o mais democrático de todos, capaz de fazer autocrítica e atender aos anseios populares, sendo uma construção coletiva das bases. A questão que fica é: estaria Maduro se distanciando do legado de Chávez?

O fato é, que qualquer mudança realmente necessária na Venezuela, como uma eventual mudança de governo, passa pela reconstrução das bases, e pela preservação do legado da revolução bolivariana, pela garantia da soberania nacional contra os interesses estrangeiros, e do fortalecimento da integração regional. O processo de mudanças iniciado nos anos 1990 foi coletivo, de massas, liderado por Hugo Chávez, mas não centralizado na figura dele, como ele próprio propôs, mas centrado em um projeto de país construído coletivamente. É essencial que a revolução nacional da Venezuela não se centralize na figura de Nicolás Maduro e em um culto à personalidade, se é que é realmente possível, nestas alturas, (re)construir, além de um "chavismo sem Chávez", um chavismo sem Maduro. Do contrário, veremos a ascensão de uma oposição liderada pelos Estados Unidos, estabelecendo mais um de seus governos fantoches na América Latina, e seus tentáculos sobre os recursos naturais e a mão de obra de nossos povos.

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